blog saudedaigreja

Terça, 11 Julho 2017 13:10

18 e 19 de agosto • Belo Horizonte/MG

LOCAL:
Igreja Batista Redenção  
Rua Itapagipe, nº 69 - Concórdia
Belo Horizonte/MG.

 

PROGRAMAÇÃO

18/08 (sexta-feira)
19h às 21h
Palestra 1
Liderando pela pregação

19/08 (sábado)
9h30 às 11h30
Palestra 2
Compreendendo o nosso mundo

19h às 21h
Palestra 3  
Transformando o nosso mundo


Contatos:
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Publicado em Saúde da Igreja

Como ovelhas sem pastor

A ideia de que “homem não chora” já não é tão aceita hoje como era antigamente. Mesmo assim, é natural que se avalie o que seria suficiente para fazer um homem adulto chorar. Qual seria uma motivação válida? Naturalmente, aquilo ou aquele que nos faz chorar demonstra nossa escala de valores, o que amamos especialmente, o que realmente importa para nós.
A Bíblia nos informa as poucas oportunidades em que Jesus chorou. Uma delas foi por ocasião da morte de seu amigo Lázaro. As pessoas em volta avaliaram que as lágrimas atestavam que, certamente, Jesus amava Lázaro. Outra situação foi em Lucas 19.41, diante de um povo sofrido e perdido, efetivamente sem pastor. Em Mateus 9.36, somos informados de que Jesus é tomado de compaixão diante do fato de que as multidões eram “como ovelhas que não têm pastor”. Após a ressurreição, a manifesta vontade de Deus para Pedro (Jo 21.15-17) não deixa dúvida de que essa era uma questão importante para ele. Para o Senhor Jesus, não faz sentido que as pessoas estejam perdidas, sem esperança e sem orientação – como ovelhas sem pastor. Essa questão deve ser importante também para nós. Certamente faz parte do plano de Deus que as pessoas sejam pastoreadas, e é nosso trabalho, como líderes ministeriais, cooperar na tarefa de suprir a igreja do Senhor Jesus com pastores segundo o coração de Deus.

“Ovelhas sem pastor” entre os não crentes

O olhar perceptivo e generoso de Jesus tem sido inspiração para muitos dos líderes evangélicos que não são indiferentes ao sofrimento humano. Incomoda para esses irmãos e irmãs o fato de que uma parcela significativa da população não seja pastoreada, uma vez que está fora do rebanho do Senhor. São homens e mulheres, adultos e crianças, pessoas de todas as classes sociais, pessoas perdidas. A morte espiritual as faz serem incluídas nesse grupo pelo qual choram os líderes que se preocupam com as mesmas causas que produzem as lágrimas do Senhor Jesus.
Na Bíblia, os que não viram ainda a “grande luz do Evangelho” (Mt 4.16) estão em trevas, e são como ovelhas sem pastor. Estão perdidos, alienados da família de Deus, condenados, “sem esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2.12). Por essa razão estão incluídas no público-alvo deste trabalho. Carecem de um pastor, e carecem ainda de um encontro pessoal com Jesus Cristo, nosso Senhor.
Essas “ovelhas sem pastor” estão por todo lado, e na verdade, formam a grande maioria da população. Se, por exemplo, nos detivermos em notar quem são nossos vizinhos, vamos encontrar pessoas sem pastor. Estão nos diversos ambientes de trabalho. Um passeio a uma feira livre ou a um shopping center será a oportunidade adequada para encontrar pessoas que são como ovelhas sem pastor. Basta ligar a televisão, ir até a rodoviária da cidade ou a um aeroporto, conhecer os alunos, funcionários e professores de uma escola, ou mesmo fazer uma visita a um hospital ou a uma prisão. É como ovelha sem pastor a grande maioria dos moradores das grandes cidades, tanto os da periferia quanto os que vivem em suas regiões nobres. Pessoas das diferentes gerações podem ser identificadas como parte desse rebanho desgarrado e desassistido. Essas pessoas que podem ser identificadas como ovelhas sem pastor estão nas pequenas cidades de interior, nas comunidades indígenas, entre os quilombolas e sertanejos. Muito mais do que a metade da população brasileira é como ovelha sem pastor! E o Senhor Jesus se angustiava por causa dos que eram percebidos desse modo!
Sem um pastor, essas pessoas fazem o que lhes vem à mente. Vivem de acordo com as normas sociais e ditames do sistema de marketing que influencia a uns e a todos, são levados pelos ventos de doutrina, pelos enganos do inimigo. Mesmo do ponto de vista religioso, são cegos que guiam outros cegos e, por isso, estão perdidos mesmo quando se tornam consumidores de empresas religiosas que lhes exploram a fé, mas não lhes oferecem pastoreio verdadeiro. Talvez não desejemos incluir esse grupo entre o que chamamos de “ovelhas sem pastor” porque, em um sentido, ainda não são ovelhas. A verdade, porém, é que não seria justo excluí-las, especialmente considerando o fato de que aqueles por quem Jesus se compadeceu seriam incluídos especificamente nesse grupo, pois ainda não criam nele.

“Ovelhas sem pastor” entre os crentes

Primeiro tenho que contar com a gentileza de quem lê para não tomar ao pé da letra os rótulos que não consegui evitar – crentes e não crentes, por exemplo. Estou me referindo agora ao fato de que há um enorme crescimento no número de igrejas chamadas de “evangélicas”, e seus frequentadores são, geralmente, chamados no Brasil de “crentes”. A preocupação, então, está em duas dimensões: igrejas sem pastor e igrejas que contam com um ou mais pastores, mas cujos membros não são efetivamente pastoreados.
Vamos colocar toda a questão a partir de um tema bastante recorrente entre os que se envolveram com formação de líderes pastorais (sendo ou não parte da organização TOPIC). Primeiro, as pessoas criadas por Deus e que povoam a terra devem ter direito a uma manifestação da presença de Deus no mundo na forma de igreja – ou seja, no nosso caso, cremos que a presença da igreja deve ser sentida em todos os cantos e recantos do Brasil. Segundo, cada uma dessas igrejas (organismos ou instituições) possui o direito de ser devidamente pastoreada. Terceiro, o pastoreio de cada igreja deve alcançar de modo efetivo e eficaz a cada um de seus membros, da maneira mais plena possível. Uma suspeita que realmente nos incomoda é que haja uma grande quantidade de membros de igrejas que estão privados do benefício de um pastoreio adequado.
O percentual de pessoas que se dizem evangélicas ou protestantes no Brasil aumentou muito nos últimos anos, como pode ser notado pelo “senso comum”, e até mesmo pelas agências oficiais de estatísticas. O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – informa que em 1980 éramos 6,6% da população brasileira, em 1991 passamos para 9,0%, e já nos anos 2000 éramos 15,4% de evangélicos em relação à população brasileira. Em 2010 chegamos a 22,2% de evangélicos. Considerando o crescimento populacional, esse aumento se torna, de fato, algo extraordinário. A própria mídia tem divulgado o fato do crescimento de evangélicos, e trata o fato como um movimento que afeta especialmente o catolicismo brasileiro, porque, de fato, grande quantidade de pessoas mudou de religião e agora se denomina evangélica. Há evidências claras de que até mesmo a liderança católica tem se preocupado com o fato e diversos esforços têm sido dedicados no sentido de tentar diminuir a perda de fiéis. A aceitação do movimento carismático católico, o surgimento de padres populares (astros de música e de comunicação com auditórios e literatura), somados a esforços oficiais, como a visita do Papa Francisco ao Brasil logo no início de seu pontificado (aliás, um papa de perfil bastante popular) por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, são exemplos que evidenciam essa percepção e o esforço para evitar uma avalanche ainda maior de católicos em direção às igrejas denominadas evangélicas (sejam elas quais forem).
O crescimento do número de evangélicos no Brasil, assim como em outras partes do mundo, foi, naturalmente, acompanhado pelo crescimento do número de igrejas locais. Se os templos evangélicos praticamente não existiam nos primeiros quatrocentos anos da história do Brasil, e eram relativamente poucos até os primeiros dois terços do século 20, o que se observou foi um aumento gradativo a partir dos anos 70 ou 80, e uma verdadeira multiplicação de templos evangélicos distribuídos por todos os recantos do país neste início do século 21. Cidades e regiões em que a presença evangélica era insignificante (ou mesmo desconhecida) passaram a perceber diversas portas abertas com o nome de igreja evangélica. Algumas cidades brasileiras chegam a exibir dois, três ou mais templos em uma mesma rua e, em alguns casos, há até mesmo uma competição de uma igreja bem ao lado de outra.
As denominações históricas (pentecostais ou tradicionais), que tinham certo controle sobre o processo de abertura de novas igrejas, receberam a companhia de inúmeras outras denominações e igrejas independentes. Hoje, no Brasil, há igrejas de todos os tipos e tendências e, em alguns casos, pode-se encontrar igrejas chamadas evangélicas que têm pouco em comum com as igrejas evangélicas que conhecíamos no país em anos anteriores. Olhando de uma perspectiva otimista, há muitos que consideram algo bastante positivo o fato de termos a multiplicação de pessoas que se denominam evangélicas e de templos conhecidos como evangélicos. De outro lado, não há dúvida de que há urgente necessidade de uma estrutura bíblica, teológica e pastoral para esse movimento que testemunhamos, no qual alguns parecem meio satisfeitos, mas a maioria de nós, líderes evangélicos brasileiros, estamos na verdade bastante incomodados.
A palavra “incômodo”, usada acima, pode constranger muitos de nós, porque fomos ensinados (com verdade) que o crescimento do Reino de Deus, a conversão de pecadores e a “substituição de botecos por igrejas” em todo lugar, deveria incomodar o inimigo, Satanás, e não aos líderes cristãos. Estes deveriam glorificar a Deus e celebrar esse momento de euforia e colheita abundante em nossa pátria e em tantos lugares do mundo. O que, de fato, perturba é pensar sobre o rumo para onde esse incômodo nos conduzirá, diante de tantos desvios daquilo que se pode considerar o cristianismo verdadeiro. A conversão de pecadores e formação de novas igrejas são motivo de exultação, e não de preocupação. O problema está na inconsistência das conversões.
Outro problema enfrentado pela igreja evangélica brasileira é notar, tristemente, que há muitos casos em que as igrejas que surgem são, na verdade, distantes da natureza essencial do que significa ser uma igreja neotestamentária. Muitas delas lidam com dificuldade para cumprirem a missão bíblica de uma igreja verdadeiramente cristã. Desse modo, surgem as opções de tomar parte em um perigoso movimento contra as igrejas (com críticas teológicas ou pragmáticas), ou a criação de um projeto sério que tenha como objetivo ajudar essas igrejas e os que as frequentam a se aproximarem mais do modelo bíblico do que significa ser igreja evangélica e crente em Jesus, nosso Senhor.
Não são raras as vezes em que confundimos templo com igreja em nossas conversas diárias. Pode-se dizer que não há nada de errado nisso, uma vez que a língua portuguesa nos faculta o direito de usar figuras de linguagem que facilmente indicam que quando mostramos o templo, não estamos nos referindo apenas a ele, mas à igreja de fato. Fica ainda manifesto no senso comum a natural facilidade com que nos esquecemos tantas vezes de que somos pastores de pessoas, e não de prédios ou de instituições. A confusão é ainda maior no contexto de diversas de nossas igrejas locais no Brasil que passam por momento de estruturação e estão, muitas vezes, envolvidas em construções, elaboração de documentos e outras atividades nessa área. O pastor chega a acreditar que está edificando a igreja quando, na verdade, está edificando um prédio; pensa que está fazendo nascer uma igreja quando, na verdade, está legalizando documentos e institucionalizando a igreja (o que parece inevitável!). É como se o perfumista se contentasse com a fabricação de vidros bonitos, ou o chefe de cozinha se alegrasse em fazer panelas. Diante da natural dificuldade de se lidar com pessoas, alguns colegas se dedicam exageradamente a tijolos e concreto. Precisamos aqui firmar um ponto básico em ministério pastoral: pastoreamos pessoas!

• Trecho retirado do capítulo 1 de OVELHAS QUE TÊM PASTOR - Formação de líderes com coração pastoral de João Cavalcante (Editora Esperança)

 

Publicado em Saúde da Igreja

Projeções para a igreja do futuro_

por Johannes Reimer

 

A plantação de igrejas está “in” – o assunto é: implantação de igrejas

A liquidação do cristianismo na Europa ocidental

Nos últimos quarenta a cinquenta anos, igrejas cristãs de todos os países da Europa ocidental estão vivendo uma debandada inédita de seus membros. Denominações inteiras enfrentam a questão da sobrevivência. Um exemplo são as igrejas na Grã-Bretanha. Se a tendência se mantiver, em menos de uma geração a Grã-Bretanha cristã como a conhecemos não existirá mais[1]. A Igreja da Escócia[2], por exemplo, terá perdido seus membros por volta do ano 2033[3] e a Igreja Metodista da Grã-Bretanha terá desaparecido até o ano 2031[4]. Nos quarenta anos entre 1960 e 2000 a membresia ativa na Inglaterra caiu de 9,9 milhões de membros (1960) para 5,9 milhões no ano 2000. É uma perda de 40%[5]. Se incluirmos o crescimento correspondente da população, a perda de membros sobe para quase 50%[6]. Os números da Igreja Anglicana são parecidos. Nos mesmos quarenta anos ela perdeu metade de seus membros, fechou 6.000 igrejas e 7.500 perderam seus ministérios[7].

A situação dos outros países da Europa ocidental não é muito melhor. Na Alemanha, ano após ano milhares de pessoas abandonam as igrejas. No período entre 1991 e 2004 a igreja da região de Württenberg perdeu 201.054 membros[8]. Isto equivale a uma média de 14.361 pessoas por ano. No mesmo período, apenas 2.479 pessoas se filiaram à igreja[9]. E mesmo quando as pessoas ainda permanecem na igreja oficialmente, apenas uma pequena parcela delas participa dos cultos. Em 2003, uma pesquisa realizada entre os participantes do culto principal nas igrejas de 47 das 51 paróquias mostrou a seguinte distribuição dos membros por faixa etária: 47,6% tinham mais de 60 anos; 28,2%, de 40 a 60 anos; 17,9%, de 20 a 40 anos; 6,4%, menos de 20 anos[10]. Se levarmos estes números a sério, podemos entender porque Willi Beck chama sua igreja de uma “igreja da terceira idade”[11].

Neste contexto, a 4ª KMU[12] da Igreja Evangélica da Alemanha (EKD) também é esclarecedora. De acordo com ela, 15% dos membros da IEA nunca participaram de um culto, 27% vão ao culto uma vez por ano ou menos e 35% vão mais de uma vez por ano. No fim isto soma 77% dos membros da igreja que frequentam a igreja apenas por motivos familiares[13]. Em termos de participantes regulares dos cultos, o número não deve passar de 5%[14]. Há mais de cem anos está claro que a Alemanha é um campo missionário[15]. Mas as igrejas não aprenderam quase nada com este fato. É verdade que agora começam a surgir vozes na igreja pedindo uma reorientação radical. A Europa como um todo, e a Alemanha em especial, deve ser novamente evangelizada[16]. Mas como? Uns encontram a resposta na persistência, outros em modelos agressivos de plantação de igrejas. Um terceiro grupo exige uma conceituação radicalmente nova, uma nova compreensão de igreja, uma mudança de paradigmas na plantação das igrejas.

 

Fundar igrejas – a solução?

Há anos a extrema pressão colocada sobre as igrejas ocidentais transformou a plantação de novas igrejas no assunto do momento. A plantação de igrejas parece ser a boia salva-vidas do Ocidente pós-cristão, depois de ter sido louvada como um método missionário eficaz[17], a estratégia missionária por excelência da década de 90[18], o método evangelístico mais eficiente que jamais existiu sob os céus[19], o instrumento por excelência para o crescimento das igrejas[20] e até mesmo “o objetivo principal de todos os planos missionários”[21]. Mais que isto: ela é vista como a única alternativa realmente bíblica. Gladden afirma: “A plantação de igrejas é o caminho neotestamentário para a divulgação do Evangelho”[22]. Plantação de igrejas é a estratégia bíblica para a expansão do Reino de Deus, concorda Paul Becker[23]. Diante de tantos elogios, é praticamente natural que o interesse pela plantação de igrejas cresça constantemente. Em alguns lugares chega-se ao ponto de afirmar que a Europa foi inundada por uma “onda de plantação de igrejas”[24].  Estudos empíricos sobre o crescimento numérico de igrejas ou denominações inteiras parecem confirmar essas afirmativas até a metade dos anos 90[25].

O começo do novo milênio parece ter trazido uma mudança na tendência. Depois da década da evangelização, que dominou os EUA e outros países ocidentais na década de 90, chama a atenção que na sequência houve uma diminuição do número de novas igrejas sendo abertas[26]. No livro Hope from the Margins – New ways of being church [Esperança a partir das margens – Novas formas de ser igreja](Grove Books), publicado em 2000, os autores Stuart Murray e Anne Wilkinson-Hayes, dois analistas do crescimento das igrejas na Inglaterra, procuram uma justificativa para esse esfriamento da euforia na plantação de igrejas. Além de motivos pragmáticos relacionados ao fato de que as igrejas que fundaram uma ou mais novas igrejas na década de 90 ainda não estão em condições de repetir a empreitada, os autores citam o fato de que um número inquietante das fundações de novas igrejas fracassou[27]. Em vez de crescer, as novas igrejas mantiveram-se pequenas e insignificantes, ou então foram logo fechadas por não terem permitido a concretização da visão original. Em geral, só foram bem-sucedidas as novas igrejas fundadas em regiões com maioria cristã. A plantação raramente era bem-sucedida em áreas onde não havia cristãos. Frost e Hirsch explicam esse resultado com o fato de que as novas igrejas na maioria das vezes eram cópias da igreja-mãe, que há tempo já havia perdido a conexão com o ambiente em seu entorno[28]. Aparentemente a multiplicação de conceitos ultrapassados não funciona dessa forma.

 

O problema real

Plantação de novas igrejas como solução final para o ameaçado ocidente cristão? Não são poucos os que duvidam dessa tese[29]. E mesmo em grupos que, por princípio, se posicionam favoravelmente à plantação de igrejas ouvem-se vozes questionando a atual euforia em relação a este assunto. Elas defendem que o crescimento real do cristianismo no ocidente é pequeno demais, apesar do impacto missionário atribuído há duas décadas à organização de novas igrejas. A multiplicação da igreja como principal instrumento da expansão do Reino de Deus não parece muito convincente. Por quê? O que está freando o movimento cujo começo foi tão promissor? É a plantação de igrejas em si que fracassou como instrumento missionário, ou o problema é antes a forma como foi executada? De qualquer forma, parece indicado dar uma olhada nos bastidores desse tipo de trabalho missionário. É possível que a resposta esteja além da organização institucional de igreja.

Esse é o ponto de partida da crescente demanda por uma igreja missionária em vez de institucional[30]. Exige-se não uma simples cópia de igrejas com métodos aprimorados, mas de uma conceituação teológica fundamentalmente nova. Os freios do movimento não são metodológicos, mas teológicos. É preciso repensar não somente a apresentação externa da igreja, mas também sua natureza. Será possível que o problema real da plantação de igrejas não seja de natureza metodológica ou organizacional, mas teológica? Será que a plantação de igrejas enfrenta uma crise semelhante à missão geral da Igreja, e não tem mais certeza do motivo, objetivo e obra[31] da sua missão? Terá o paradigma da igreja cristã se esgotado, como defendem Frost[32], Murray[33] e outros? Será que pós-modernismo também significa pós-cristianismo, como provoca Stuart Murray[34]? Será que a euforia do crescimento das igrejas, comum na década de 80, chegou relutantemente ao fim? É espantoso o nível de concordância entre os especialistas em crescimento de igrejas contemporâneos, o que fica claro no livro altamente inspirador de Eddie Gibbs[35] sobre este assunto. O fato de Gibbs ser um dos principais representantes do Instituto de Crescimento da Igreja no Fuller Theological Seminary (Pasadena/Califórina – EUA) serve para deixar a mudança da situação ainda mais óbvia[36]. A plantação de igrejas está diante de uma nova mudança fundamental de paradigmas, que exige uma profunda reorientação teológica.

Mas a reflexão teológica séria sobre o escopo da plantação de igrejas é rara até mesmo entre quem funda as igrejas e, de acordo com Murray, é o maior dos problemas[37]. A plantação pressupõe que algo está sendo construído. Espera-se o surgimento de algo novo. A novidade é elogiada. Tanto mais nos espanta quão pouca descrição se faz dessa novidade. Devemos fundar novas igrejas. Muito bem, mas de que tipo? Se as igrejas antigas fracassaram, se ninguém mais as ouve, como seria uma igreja melhor em tudo? Brian D. MacLaren escreveu um livro provocador, A igreja do outro lado[38] (Palavra, 2008), no qual afirma que não basta somente exigir novas igrejas. A verdadeira crise da igreja atual é de natureza espiritual e teológica[39]. Nada mais é tão necessário hoje em dia quando uma teologia biblicamente fundamentada para a organização de novas igrejas. As palavras de Charles Brocks, escritas há vinte anos, não perderam nada da sua urgência: “A grande miséria atual está na área da teologia renovada. Pois uma boa metodologia de plantação de igrejas precisa, natural e forçosamente, originar-se de uma teologia bíblica.”[40]

Hoje em dia há novas igrejas surgindo em todos os cantos. Mas qual é a consequência delas para o país e para as pessoas? É preciso refletir sobre a natureza dessas novas igrejas. Precisamos apresentar algumas questões a elas. Questões teológicas, desconfortáveis e ao mesmo tempo salutares. O exemplo do bispo emérito Lesslie Newbegin mostra como pode ser salutar fazer as perguntas certas na hora certa. No livro The Other Side of 1984: Questions for the Churches [O outro lado de 1984: perguntas para as igrejas] (World Council of Churches, 1990) Newbegin, que trabalhou a vida inteira na Índia e depois voltou à Inglaterra, pergunta por que a igreja ocidental havia sido tão malsucedida do ponto de vista missionário. Suas perguntas deram origem a uma avalanche de publicações teológicas e não enriqueceram apenas a discussão, mas principalmente a prática da missão das igrejas[41].

Infelizmente Newbegin ainda é um dos poucos exemplos positivos de como o trabalho teológico sério pode transformar a prática missionária de forma impactante. Em geral vale a frase de Gensichen, de que o relacionamento entre a missão e a teologia acadêmica “é marcado por um frio distanciamento”[42]. E o desagradável fosso entre a teologia e a prática eclesiástica já se tornou quase proverbial. Nada mais é tão necessário quanto a construção de uma ponte firme sobre este fosso, principalmente no que se refere à implantação de igrejas. Essa conclusão não é nova. Já no fim da década de 70 Mette exigia uma mudança de conscientização dos teólogos práticos. Ele escreve: “Não existe mais: aqui ficam os teóricos, e lá, os práticos; mas teóricos e práticos devem se encontrar na mesma pessoa.”[43]

Mas não será suficiente exigir uma mudança de paradigmas na nossa compreensão de igreja, uma nova forma de pensar, como faz Christian A. Schwarz[44], e depois tentar mudar a teologia a partir de modelos práticos[45]. O resultado deste procedimento é bem ilustrado pelo exemplo modelo da Willow Creek Community Church (WCCC) nos EUA. Aqui a óbvia ausência da reflexão teológica sobre a cultura americana parece trivializar cada vez mais a pregação do Evangelho, como mostra o estudo realizado por Craig A. Pritchard, que permaneceu algum tempo nesta igreja[46]. Pragmatismo na implantação da igreja sem a formação teológica simultânea dos colaboradores responsáveis pela igreja leva à perda da verdade bíblica. Uma “igreja impulsionada pelo mercado”[47] corre o risco de ser atropelada de tal forma pela cultura dominante a ponto de perder seu real perfil. Middelmann ilustra isso pelo exemplo do desenvolvimento nos EUA[48]. Portanto as duas coisas são necessárias: uma fundamentação bíblico-teológica profunda da igreja e um discernimento fundamental da cultura no ambiente em que a igreja será fundada. A igreja de Jesus não pode se deixar dominar pelas normas e valores da cultura ocidental. Esta advertência de Hans-Werner Gensichen mantém sua validade aqui e agora[49]. A rede americana Gospel and our Culture Network (GOCN) afirma, com razão:

“Uma igreja missional representa Deus no conflito entre Deus e a cultura. Ela não existe devido a ideias e necessidades humanas, mas como resultado do trabalho criativo e salvífico de Deus neste mundo. É uma manifestação visível da Boa Nova de Jesus Cristo no dia a dia das pessoas, e transforma a cultura humana, para que esta reflita com mais nitidez os propósitos de Deus para sua criação. É uma comunidade que participa visível e ativamente da obra de Deus no mundo, da forma como Jesus indicou na parábola em que a comparava com sal, massa fermentada e luz.”[50]

Portanto a reflexão teológica sobre a igreja não é apenas indicada, mas essencialmente importante para a igreja que deseja ser ao mesmo tempo relevante e transformadora em sua cultura. A teologia da implantação de igrejas deve ser entendida como uma “ciência da reflexão”[51]. Ela se forma para a prática a partir da prática missionária. Mas não deve ser mal compreendida como um relatório da experiência prática. A teologia é, antes de mais nada e principalmente, um conceito, uma fundamentação teórica que convida à prática. Vale o que Mette diz a respeito da teologia prática em geral: “A teologia prática não é prática, mas teoria. Só assim ela cumprirá bem sua função para a prática.”[52]

 

Necessidade de fundamentação teológica

Como mencionado antes, uma breve passada de olhos nos conceitos de plantação de igrejas leva à triste conclusão de que “a maior parte da literatura sobre implantação de igrejas contém pouquíssimas discussões teológicas”[53]. Por um lado, isto certamente se deve à “disfunção da teologia acadêmica”[54], acusada por Rudolf Bohren já no ano de 1975. Mas, ao contrário de Bohren, eu também vejo nos práticos pouco interesse para um aprofundamento teológico da conceituação. Nos dois lados da cerca, as pessoas ficaram presas na autocontemplação. Mas é preciso que haja intercâmbio entre teoria e prática. Só assim será possível formular uma nova teoria de ações capaz de dar novas dimensões à implantação de igrejas. É disso que trata esta apresentação.

A análise teológica e missiologicamente fundamentada do objeto determinará critérios que certamente questionarão alguns dos mais elogiados modelos de plantação de igrejas da atualidade[55]. Isto doerá. Mas de que outra forma poderemos separar o joio do trigo? De que outra forma poderemos encontrar um fundamento bíblico saudável sobre o qual a casa da igreja possa ser construída sem temer que a primeira tempestade a derrube? A fundamentação teológica e missiológica da plantação de igrejas é o alicerce de que a visão, a missão, a metodologia e a prática da implantação da igreja necessitam com tanta urgência. Se quisermos que a igreja tenha uma chance de sobrevivência é preciso, como diz Manfred Beutel, uma “declaração de vida da igreja”[56], que determine tanto a visão da igreja quanto a sua concretização. E não é possível fazer essa declaração de vida sem uma reflexão teológica cuidadosa.

A necessidade da fundamentação teológica da implantação de igrejas não decorre apenas da prática e da reflexão teológica que lhe falta. Uma verificação rápida de conhecidos esboços de Teologia Sistemática confirma isto: há poucas referências ao tema. Os tratos eclesiológicos parecem orientar-se basicamente pelas práticas correntes da igreja. O foco não é a implantação de igrejas, como critica Murray, com razão[57]. Aliás, o mesmo também pode ser dito da missão da igreja como um todo. Por isso é justificada a demanda por uma eclesiologia missionária, como a levantada pelo missiólogo sul-africano W.A. Saayman[58].

 

• Trecho retirado do capítulo 1 de Abraçando o Mundo - Teologia de implantação de igrejas relevantes para a sociedade de Johannes Reimer (Editora Esperança)



[1]     Sobre a situação da igreja na Inglaterra, veja Brown 2000; Bruce 2003; Brierley 1999; MacLaren 2004:1-3.

 [2]     Igreja presbiteriana Nacional da Escócia (sem ser “igreja estatal”). Originou-se da Reforma Protestante. (N. de Tradução)

 [3]     Brown 2000:5.

 [4]     Bruce 2003:53-63.

 [5]     Brierley 1999 em MacLaren 2004:1.

 [6]     MacLaren 2004:1.

 [7]     Ibd:2.

 [8]     Evangelisches Medienhaus em Beck 2007:35.

 [9]     Ibd.

 [10]    Stöffler 2003; Beck 2007:43.

 [11]    Beck 2007:43.

 [12]    Censo realizado pela Igreja Evangélica da Alemanha (EKD).

 [13]    Huber 2006:453.

 [14]    Leia também a avaliação de uma série de testemunhos de participantes de cultos da IEA em Beck 2007:44s.

 [15]    Gerhard Hilbert havia declarado isto para a igreja nacional já em 1916 (Herbst 2005:202). As igrejas livres assumiram esta posição desde o seu surgimento.

 [16]    Em sua dissertação escrita em 2004, Fridemann Walldorf analisou os diferentes conceitos para a reevangelização da Europa. Chama a atenção que tanto a Igreja Católica Romana quanto a igreja evangélica estão de certa forma perdidas. Veja Walldorf 2004.

 [17]    Erdlenbruch 1996: 19ss; Noack 1999:7s.

 [18]    Schwarz em SChlotthoff 1989: 112ss; Hempelmann 1996:9; Machel 1999:5.

 [19]    Diversos autores indicam a plantação de igrejas como o mais eficiente método evangelístico. Veja também: Wagner 1990:11/1990a:12; Logan 1992b:151; Mauerhofer 1998:254; Schaller 1991:28; Becker 1992:Sec I-3; Garrison 2004:28.

 [20]    Garrison 2004:24f; Roenfeldt 2003:2; Schaller 1983:165.

 [21]    Berger 2003:7.

 [22]    Gladden 1988:4; Roenfeldt 2003:3.

 [23]    Becker 1992:Sec I-2.

 [24]    Waldschmidt 2003:13.

 [25]    Veja também: Bryant 1993:9-11; Dudley 1989:27; Schaller 1991:14ss; Roenfeldt 2003:3.

 [26]    Frost 2003:17.

 [27]    Murray 2000:4-5.

 [28]    Frost 2003:18.

 [29]    Sobre as vozes críticas, leia a dissertação de Murray 2001:15ss; Frost 2003:17ss.

 [30]    Frost 2003:xi.

 [31]    Gensichen 1971:37. Sobre a crise fundamental da missão leia Gensichen 1971; Bosch 1991.

 [32]    Frost 2003.

 [33]    Murray 2004.

 [34]    Ibd: 251ss.

 [35]    Gibbs 2000.

 [36]    A School of Church Growth (Escola de Crescimento da Igreja), criada por Donald McGavran (1897-1990), foi muito determinante no movimento de crescimento de igrejas nos anos 80 e 90. O livro de Donald McGavran, Compreendendo o crescimento da igreja (Sepal, 2001) foi a base de uma série de publicações influentes sobre o tema “crescimento de igrejas”.

 [37]    Murray 2004:17. É espantoso como mesmo alguns autores sérios lidam de forma superficial com a fundamentação teológica da plantação de igrejas. Mauerhofer (1998:253-254), por exemplo, usa pouco mais de uma página de seu livro para fundamentar a organização de igrejas em seu livro, cujo significativo título é Gemeindebau nach biblischem Vorbild (Edificação de igrejas de acordo com o exemplo bíblico). Ele usa a atuação evangelística da igreja em Jerusalém e em Tessalônica e, com a maior facilidade, tira a seguinte conclusão: “Estes exemplos bíblicos mostram que a tarefa de toda igreja é fundar novas igrejas. Cada igreja tem a tarefa de multiplicar-se organicamente” (:254). Mas de onde o autor tirou essa tarefa? Em geral a urgência da plantação de igrejas postulada por Mauerhofer (1998:255) é justificada de forma pragmática. Fica faltando a reflexão teológica. Mesmo outros conceitos, especialmente do ponto de vista prático, dão pouco valor à fundamentação teológica do processo (veja p.ex. Nodding 1994).

 [38]    McLaren 2000.

 [39]    Guder 1998:3.

 [40]    Brock 1981:9.

 [41]    Guder 1998:3.

 [42]    Gensichen 1971:42.

 [43]    Mette 1978:210.

 [44]    Schwarz 1993:83s.

 [45]    Mudança de paradigma na Igreja - Como o desenvolvimento natural da igreja pode transformar o pensamento teológico, Schwarz 1999. (Esperança, 2001)

 [46]    Pritchard 1996:272ss.

 [47]    Middelmann 2004:197ss.

 [48]    Ibd.

 [49]    Gensichen 1971:53.

 [50]    URL:http://www.gocn.org (Site em inglês. Acesso em 25/04/2011); Frost 2003:7 (tradução do autor para o alemão)

 [51]    Mette 1978:352.

 [52]    Ibd:109.

 [53]    Murray 2001:39.

 [54]    Bohne em Mette 1978:197.

 [55]    Murray 2001:18.

 [56]    Beuter 1998:9s.

 [57]    Murray 2001:37.

 [58]    Saayman 2000.

 

Publicado em Saúde da Igreja

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